Niterói por niterói

Sergio Torres

Sergio Torres trabalhou nos três maiores jornais do país ao longo de 35 anos. Mas se interessa mesmo é pelas notícias locais de Niterói, onde nasceu e sempre viveu. 
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Jamelão em seminu frontal

jamelão
Jamelão, o ídolo do contínuo gente boa e que virou lenda na Redação

Durante algum tempo, lá por 1984 ou 85, a Rádio Fluminense AM promovia um programa matinal de debates sobre problemas de Niterói e do Estado do Rio. Transmitido ao vivo, o programa reunia Secretários estaduais e municipais, líderes comunitários, sindicalistas, pessoas de destaque em geral.

Nós, repórteres de “O Fluminense”, tínhamos que cobrir o programa semanal e produzir uma matéria alentada sobre o que se falara ali. Ainda mais que o apresentador do programa era o editor-geral do jornal, Olegário Wanguestel Jr..

Na véspera da estreia do programa, Olegário dera instruções muito precisas ao contínuo da manhã. O rapaz tinha que levar umas oito cadeiras da Redação para a rádio, alguns andares acima. Ou os convidados teriam que ficar de pé. A emissora não tinha cadeiras suficientes.

Eu não lembro o nome do contínuo. Mas lembro bem de seu apelido: Badete. E o apelido surgiu neste primeiro dia do programa de debates.

Eu era o repórter encarregado de cobrir a estreia. O programa começaria por volta das 8h. Cheguei à Redação meia hora antes. Encontrei o rapaz em desespero. Ele tinha esquecido para onde levar as cadeiras. Era meio gago, suava frio, mexia as mãos com sofreguidão.

“Sergio, onde vai ser o badete? Seu Olegário disse que é para eu levar as cadeiras pro badete, mas não lembro mais o andar.”

“Badete!!! Que porra de badete é esse, garoto?”

“O programa do badete, do seu Olegário. Tenho que levar as cadeiras pra lá.”

Ali eu entendi. O pobre coitado invertera as sílabas. Debate para ele virou badete. Daí nasceu o apelido pelo qual ele ficou conhecido em toda a empresa. Rapaz simpático o Badete, gente boa. Nunca mais o vi.

Badete era bem diferente de um outro contínuo, o Jorge, mais antigo na casa. Jorge era cambono de um terreiro de macumba em São Gonçalo. Vangloriava-se de que prestaria concurso para a Polícia Militar, onde ficaria rico de tanto roubar.

Porque roubar era com ele mesmo. Houve um período em que começaram a sumir os alimentos nobres de cada marmita deixada na estufa improvisada em uma copa mequetrefe anexa à Redação. De uma sumiu a linguiça; de outra, o bife; de uma terceira, o ovo frito. O ladrão só queria o melhor. Nem chegava perto do macarrão brabo, do arroz, muito menos das verduras.

As vítimas do larápio colocaram-se em prontidão. Montou-se uma espécie de tocaia. Com surpresa, flagraram o cambono furtando uma coxa de galinha afarofada da marmita de uma estagiária. Por pouco não houve um linchamento no prédio do secular diário niteroiense.

Havia ainda um terceiro contínuo, querido de todos, indivíduo caracterizado pela extrema gentileza com que tratava os colegas. Chamava-se Jaimar. Todos nós sabíamos que Jaimar era fã número 1 do sambista Jamelão, conhecidíssimo intérprete de sambas-enredo e canções de amor sofrido.

Profissional extremamente responsável, Jaimar nunca faltava, cumpria horários, era um cara muito legal. Até que ele sumiu. Passaram-se um, dois, três dias, e nada de Jaimar. Preocupado, o já citado Olegário pediu a um dos motoristas que fosse verificar se acontecera algo grave com o funcionário.

O motorista  encontrou a residência. Pior, encontrou Jaimar muito doente, de cama, impossibilitado de trabalhar. Não conseguia nem sequer  levantar-se até um orelhão para avisar à Redação do mal que o acometia. Foi providenciado imediato socorro médico. Jaimar ficou bom e voltou ao nosso convívio.

Mas a visita do motorista à casa do contínuo rendeu histórias. O piloto contou que todas as paredes da residência de Jaimar eram cobertas por fotos e pôsteres de Jamelão. Até mesmo na cozinha e no banheiro. O espantoso é que, segundo o cara, havia até foto do sambista vestido apenas com uma sumária sunga, à beira-mar.

Ninguém foi lá verificar se era verdade. Quando perguntado, Jaimar sorria mansamente.

(Na próxima coluna contarei sobre o enterro de Jurema, mulher do craque Roberto Dinamite. O cemitério em Duque de Caxias foi destruído pela multidão. Houve fotógrafos que caíram dentro de túmulos.)

 

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