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Andrea Ladislau

Andrea Ladislau é graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Tem especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. Na pandemia, criou no Whatsapp o grupo Reflexões Positivas, para apoio emocional a pessoas do Brasil inteiro.
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Impactos psicológicos em crianças cujas mães são vítimas de feminicídio  

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Nos últimos tempos, estamos tomando conhecimento através das mídias, com uma frequência assustadora e infeliz, de casos numerosos de feminicídios por todo o país. Histórias tristes que mostram a agressão e humilhação das vítimas, muitas vezes na presença dos filhos, e o fim trágico dessas mulheres.

Uma triste realidade que sinaliza graves consequências emocionais, morais e físicas para essa criança ou esse jovem envolvido.

Sabemos que relacionar-se não é uma tarefa fácil. Qualquer interação entre duas pessoas é muito complexa. Nenhuma será equilibrada o tempo todo e nem envolverá seres humanos sempre sensatos.

Em um relacionamento, de qualquer natureza (trabalho, amor, amizade, irmãos, pais e filhos…) tendemos a depositar muita confiança e muitas expectativas nas ações e atitudes do outro.

Mas, com o tempo e, conforme vamos aprofundando os relacionamentos, alguns sentimentos e sensações nada agradáveis podem surgir. O encantamento pode dar lugar a medos, mágoas, tristezas e rejeições.

Porém, nestes episódios existe um outro fator agravante que é a agressão e morte sendo presenciada pelos filho. Fato é que, se for uma criança muito nova, claramente terá dificuldades em assimilar, de forma correta, o que está ocorrendo, mas o clima de tensão, a visualização de socos, empurrões, gritaria e o assassinato vão provocar a desestabilização emocional dessa criança e o carregamento de instabilidade psíquica para toda a vida. Isso por conta do transtorno pós-traumático instaurado após o feminicídio.

Podem surgir graves alterações comportamentais e distúrbios emocionais importantes, afetando o humor, o apetite, a fala, a capacidade cognitiva, o aprendizado, entre outros sintomas característicos em crianças que presenciam cenas tão brutais.

Visto que, a experiência traumática poderá ser carregada para toda a vida, se não houver uma intervenção adequada de um profissional de saúde mental para acompanhar a criança e amenizar os efeitos e impactos da perda. Além da necessidade urgente de uma rede de apoio que provoque o acolhimento deste indivíduo de forma imediata.

E como seguir a vida e construir um futuro diante de um episódio que marcará para sempre sua vida? Não se iluda, o momento da perda irreparável não irá se apagar. Porém, a vida continua, apesar de tanta dor. Não se culpar e ressignificar é o primeiro passo para não cair na insegurança tremenda e não ferir sua essência.

É importante trabalhar na mente que nada justifica o erro do outro, mas essa criança ou esse jovem, de forma alguma, é responsável pelo comportamento abusivo do criminoso. O luto precisa ser vivido e compreendido sem pular qualquer etapa.

A segunda etapa é resgatar o amor próprio e a autoestima, ressignificar as experiências ruins, compreender que a vida poderá seguir e ser muito diferente do que já tenha sido vivenciado. Respeitar a si mesmo e entender que o importante é não desistir de buscar ser feliz.  Amar-se acima de tudo.

Enfim, o acolhimento do indivíduo que presencia e sofre por conta de um feminicídio é fundamental para a cura de uma relação tóxica e violenta. A ajuda de um profissional de saúde mental, através da terapia e o encontro consigo mesmo pela definição de propósitos de vida, irão ajudar a trilhar seus caminhos futuros.

A saída para se ter uma vida saudável e equilibrada, apesar das dores e marcas que ficarão para sempre é o fortalecimento da personalidade, o resgate da autoestima, o autocuidado e a busca por proteção. Não permitir, em hipótese alguma, que os fantasmas da tragédia interfiram em sua felicidade e na construção de uma nova vida.

 

Dra. Andréa Ladislau Psicanalista

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