Niterói por niterói

Trajano de Moraes

O jornalista niteroiense Trajano de Moraes sempre esteve ligado à cobertura dos assuntos internacionais em longas passagens por Jornal do Brasil e O Globo. É formado pela Escola de Comunicação da UFRJ e mora em NIterói.
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Batalha de números na Ucrânia

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Nas guerras, a primeira vítima é a verdade. A frase é clichê, mas não me lembro de outra
melhor para o conflito da Ucrânia. À margem das frentes de batalha trava-se uma guerra de
(des)informação e propaganda. A Rússia minimiza suas baixas militares e a Ucrânia minimiza
suas baixas civis. É compreensível. O presidente russo Vladimir Putin não pode admitir, para o
público interno, que a invasão do país vizinho em 24 de fevereiro tem um custo muito além do
esperado, inclusive em perda de combatentes e altos oficiais.

Moscou censura fortemente os meios de comunicação. Nem a palavra guerra pode ser
mencionada. Para todos os efeitos, o que está ocorrendo em território ucraniano é uma
“operação militar especial”. A Ucrânia, lutando pela sobrevivência, não quer que a confissão
de pesadas baixas desanime os soldados, milicianos, voluntários e o próprio povo.

As Nações Unidas dão uma ideia melhor do que se passa na guerra, na qual a Rússia usou uma
arma inédita – um míssil hipersônico (dez vezes a velocidade do som) – visto como um
assustador recado ao Ocidente. A ONU contabilizou, até o dia 21, 953 civis mortos na Ucrânia.
O governo ucraniano, por sua vez, calculou esse número em 3.360 até ontem. Mas o número
real pode ser muito maior. Além dos ucranianos, 28 civis de 12 países morreram – 12 gregos.

Já entre os militares, os EUA estimam que as forças ucranianas tenham perdido entre 2 mil e 4
mil combatentes até o dia 9. Kiev só admite a morte de 1.300 até o dia 12. A Rússia reconhece
1.361 mortos e 3.825 feridos.  Já o cálculo dos EUA exagera na imprecisão: de 3 mil a 10 mil militares até o dia 18. O jornal The New York
Times cravou 7 mil. O tablóide russo Komsomolskaya Pravda, favorável ao governo, publicou
que seriam 9.861, mas depois se retratrou. A Ucrânia alega que são 14 mil militares russos
mortos. O dado ucraniano, muito provavelmente, recorre ao efeito propaganda. Em qualquer
guerra, perdem-se vidas preciosas de ambos os lados, inclusive bebês e crianças. Na batalha de
números desse conflito, a vítima é a verdade.

Segundo a ONU, quase uma criança ucraniana por segundo está se tornando refugiado de
guerra. Desde a invasão russa, mais de 3 milhões de pessoas deixaram o país, engrossando o
número de 82 milhões de refugiados no mundo (dado de 2021). Os danos dos bombardeios
russos à infraestrutura da Ucrânia foram estimados pelas Nações Unidas, até agora, em US$
100 bilhões. O conflito está perto de levar 90% da população da Ucrânia à situação de extrema
vulnerabilidade, numa “queda livre para a pobreza”, advertiu a ONU.

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