Niterói por niterói

Sergio Torres

Sergio Torres trabalhou nos três maiores jornais do país ao longo de 35 anos. Mas se interessa mesmo é pelas notícias locais de Niterói, onde nasceu e sempre viveu. 
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Assédio na birosca

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Pimenta em feira de produtos nordestinos: tempero quente. Foto reprodução da internet

“O Fluminense” era, na época em que lá trabalhei, um jornal que poupava os leitores no primeiro dia útil da semana. Era como se o mundo não existisse aos domingos. O jornal não saia às segundas-feiras. Quem quisesse se informar, que comprasse um concorrente na banca.

Desconfio que ainda hoje “O Fluminense” não sai às segundas. Mas não vou ao jornaleiro dar o confere, não tenho mais nada a ver com isso.

A história que conto nesta coluna tem muito a ver com o descrito no primeiro parágrafo. Como não havia jornal na segunda, todos folgavam no domingo. Maravilha, não fosse um porém: todo mundo tinha que estar na Redação aos sábados. Não havia escala. O sábado era um dia como outro qualquer.

A situação era uma desgraça para os jornalistas, especialmente os repórteres, todos jovens, para quem a noite de sexta-feira deveria ser dedicada às coisas boas da vida, sem restrição de horário.

Era comum encontrarmos nas manhãs de sábado colegas dormindo nas mesas, vitimados por atrozes ressacas. Ou  jornalista ainda bêbado da noitada. Pior ainda: motoristas completamente embriagados. Aconteceu mais de uma vez de eu ter que assumir o volante do fusquinha, tal o comprometimento etílico do piloto.

Nós contávamos os minutos para o sábado passar rápido. Como o jornal fechava cedo, por volta das 12h ou 13h já estávamos liberados. Menos mal.

Durante uma boa fase daquele período, talvez 1984 ou 1985, costumávamos frequentar, pós-expediente, a antiga feira dos paraíbas de Niterói, uma filial da afamada Feira do Nordeste carioca, que funcionava em São Cristóvão (não é a mesma do pavilhão de hoje) e oferecia farta comida típica dos estados nordestinos.

Meus parceiros habituais nas incursões às barracas da feira niteroiense eram os até hoje amigos Gilberto Fontes e Aissar Elias Jorge, o Turco. Também me lembro do galhofeiro Moacir Cabral, que trabalhou pouco tempo com a gente na Redação. Ele adorava um cachaçal, não perderia a oportunidade.

Instalada no espaço onde duas décadas antes pegara fogo o famoso circo, que deixara centenas de mortos e feridos, perto de onde hoje é a favela do Sabão, a feira era reduto de miseráveis em geral (aí incluídos os jornalistas, claro). Comida vagabunda, cerveja quente, destilados da pior qualidade, cadeiras e mesas caindo aos pedaços.

O negócio era tão descaracterizado que a barraca mais apresentável era a do Gaúcho. Ou seja, a feira do Nordeste de Niterói tinha como destaque o legítimo churrasco preparado à moda do Rio Grande.

O problema é que a barraca era pra lá de suspeita: a carne vinha sempre dura, os tira-gostos eram hediondos, a falta de higiene assustava. Ao que parecia, nem copos nem pratos costumavam ser lavados.

Em uma ocasião encontramos ali um antigo colega de Redação, o saudoso Múcio Bezerra, acompanhado de umas quatro ou cinco divertidas moças.

Cara espetacular, muito engraçado, texto primoroso, Múcio trabalhara alguns anos em “O Fluminense”, era amigo de todos nós. E já estava bastante calibrado, assim como suas colegas.

Formamos uma grande mesa. Eu, o Turco, Gilberto, Múcio e suas acompanhantes. O calor era abrasivo. As cervejas se sucediam. Baratas e ratazanas, também.

Até que senti em minha perna esquerda o contato de algo que subia e descia. Não tive dúvidas, uma lacraia entrara pela calça e escalava minha canela.

Olhei pra baixo aterrorizado. Vi um pé com unhas cor de rosa roçando-me a perna. Olhei pra frente. Ao lado de Múcio, uma de suas amigas sorria pra mim. Ela tomara o cuidado de ficar um pouco atrás do jornalista, que tinha ciúmes de suas conquistas.

Medi os riscos e as possibilidades. Acho que tomei a melhor decisão. Avisei Gilberto e o Turco sobre o que estava acontecendo. Temia que Múcio visse aquilo e pensasse que eu estava assediando sua colega.

Chegara a hora de partir. Múcio não era homem de confusão. Mas tempo antes saíra no tapa com um colega jornalista justamente por causa de mulher. Aquilo poderia acabar em tragédia. Aliás, a segunda tragédia daquele funesto lugar, que tinha fama de mal assombrado por causa da catástrofe circense.

O sábado me traria coisa melhor, tinha fé nisso. Bati em retirada. Se trouxe mesmo, não lembro mais. Mas pior do que aquela triste feira dos paraíbas não poderia ficar.

(Na próxima coluna falarei sobre os debates da Fluminense AM e dos contínuos Badete, Cambono, o ladrão de marmitas, e Jaimar, presidente do fã-clube do sambista Jamelão).

 

 

 

 

 

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