Niterói por niterói

Gilberto de Abreu

Jornalista, curador de artes e produtor cultural, Giba é carioca mas foi criado em Niterói. Com quase 30 anos de experiência em jornalismo cultural, e há quatro à frente da Babel.08_Artes, vem movimentando a cena cultural da cidade com eventos como a coletiva “A Caminho da Babel”, um panorama da Artes Visuais em Niterói, que reuniu 40 artistas e mais de 200 obras na exposição inaugural da Cúpula do Caminho Niemeyer.
Publicado

As Baphyanas Brasileyras de Erica Alves

erica alves
O conteúdo desta página foi transcrito em áudio para acessibilidade de deficientes visuais

 

Érica Alves (ou apenas Érica) é cantora, produtora musical e DJ residente de Niterói. Com 10 anos de carreira e três discos lançados, ela é conhecida das pistas devido às apresentações em festas, clubes e festivais nacionais e internacionais. Seja com suas próprias canções, embaladas por sintetizadores e baterias eletrônicas, ou em seus DJ sets, Érica busca expressar seu interior e entorno através, além de promover intercâmbios entre as diversas cenas musicais com as quais tem contato. 

Foi vocalista do The Drone Lovers, participante do Red Bull Music Academy 2016, em Montreal, e indicada Melhor Produtora musical pela Women’s Music Event, em 2017 e 2019. Em 2018, foi selecionada para o Programa ASA da Oi Futuro e British Council. 

Hoje Érica Alves está no comando do curso de produção musical, WAVE Live Act, fomenta seu próprio selo, o Baphyphyna, e é artista da agência Havona Art. Salve Érica!

 

Gilberto de Abreu – Você está lançando o volume 4 da coletânea Baphyanas Brasileyras, uma compilação com produtores e produtoras brazucas de música eletrônica. O que tem norteado a sua curadoria?

Erica Alves – O que tem norteado a minha curadoria das Baphyanas Brasileyras é a comunidade de produtores musicais que estão em torno de mim e que fazem parte da minha história tanto como produtora musical como produtora cultural de eventos e também como DJ. O fato de que é focado em produtores nacionais não é de caráter estritamente nacionalista e ideológica, mas é porque eu moro no Brasil, vivo aqui e as pessoas que estão em torno do meu trabalho, logicamente também os estrangeiros que vivem e que giram em torno do Brasil. Eles também têm lugar. Como eu estou inserida na cena de música, e também de música experimental, isso reflete na curadoria.

O que há por trás do nome Baphyanas Brasileyras?

É a questão da comemoração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna e também do Bicentenário da Independência do Brasil em 2022. Assim como Heitor Villa-Lobos se propôs a fazer uma música moderna ou Modernista Brasileira, hoje me pergunto, 100 anos depois, o que ele consideraria a música moderna brasileira. 

Agora eu te pergunto: o que seria?

Eu acredito que a música eletrônica e a música experimental sejam essa música moderna brasileira e é isso que eu quero documentar e lançar para quem tiver interesse mesmo em usufruir desse panorama musical das Baphyanas Brasileyras.

Diferentemente de muitos artistas do gênero, que buscam engajamento promovendo seus trabalhos individualmente, com esse projeto você vem gerando um efeito agregador. multiplicar é preciso?

Eu passei boa parte da minha carreira como cantora e produtora focando no meu trabalho individual. Eu lancei três álbuns (To Believe, Beautiful e End of Civilization com The Drone Lovers), já participei de vários programas de residência, já fiz turnês com meu trabalho estritamente autoral. Só que eu sempre dei muito valor, na minha pesquisa, a todos os outros produtores e artistas que fazem trabalho autoral. Eu praticamente só ouço esse tipo de música. Sou muito fã das pessoas que fazem também o que eu faço, e sempre quis ter um selo. Sempre quis fomentar uma cena, porque não acredito muito em um trabalho estritamente individual. Eu acho que todo artista, para perdurar e manter-se relevante, precisa em algum momento se doar para o coletivo e fomentar uma base para dar legitimidade à sua produção. Eu não acredito muito em soluções individuais. Para nada.

O segmento da música eletrônica ainda é, majoritariamente, referenciado por homens. nos selos, nas produtoras, nos clubes, nas pick-ups. em suas redes sociais, por mais de uma vez, você ressalta a importância de se  valorizar os talentos femininos. isso é parte da sua militância?

Continuando esse assunto de comunidade e coletividade, eu, como mulher, até mesmo antes de estar na música e me tornar conhecida, sempre participei de militância política e principalmente de frentes de mulheres. Eu comecei a cruzar esses caminhos em 2015 com a fundação de Mulheres na Música em São Paulo, que juntou diversas DJs, jornalistas e demais pessoas dos bastidores para formar uma rede e fortalecer a presença feminina, não só na música eletrônica, mas também no cenário da música brasileira em geral. 

O que mudou desde aquele tempo?

Hoje temos resultados bastante palpáveis, como por exemplo a premiação Women’s Music Event (WME Awards), que é um desdobramento do Mulheres na Música. Há, também, um aumento considerável de mulheres na cena de música eletrônica independente do Brasil desde então.

Como toda cidade, grande ou pequena, Niterói também se destaca pela profusão de DJS. Homens, em sua grande maioria. Além de você, um outro nome feminino que me vem à cabeça é o da Tata Ogan, com uma pesquisa igualmente importante, dedicada à música brasileira. Tem mais???

Niterói é uma cidade extremamente abençoada musicalmente e tenho muito orgulho de representar essa cidade por aí como mulher e como artista. Temos nossa grande pioneira, Tata Ogan, grande amiga e parceira e também temos outras pessoas, outras mulheres, que estão aí representando nossa cidade. Eu estou bastante maravilhada com o trabalho da Glau Tavares, que tem se destacado, sou bastante admiradora da Yule Mansur e da Numa Gama e também tem uma artista que tá começando a se destacar nesse momento, que é a Pek0. Eu acredito muito no potencial dessas artistas e Niterói tem muito que ganhar fomentando esses talentos.

Já quero conhecer todas! Como foi participar de residências artísticas em projetos como Red Bull Academy e (cite outros)? 

Alguns dos programas que eu participei além do Red Bull Music Academy em Paris em Montreal foi a residência Pulso em São Paulo 2015 que foi de onde nasceu o Mulheres na Música, e onde gravei meu álbum “Beautiful”, que deu no que deu. Também participei da primeira edição do ASA, Arte Sônica Amplificada, programa da Oi Futuro, British Council, Light House Brighton e Shesaid.so, focado em mulheres, não só da música mas também do áudio em geral. Esse programa aconteceu no Rio de Janeiro em 2018 e me conectou com as mulheres do Estado do Rio de Janeiro, deu início a uma nova fase na minha vida, uma nova fase como artista muito importante. Me conectou com talentos como Kenya, Tamy e a própria Glau Tavares.

O que aprendeu nesses rolês, e do que mais sente falta neles?

Esses programas me ensinaram muito sobre colaborar, sobre criar comunidade, sobre networking e também sobre amizade. Nós estamos ali como iguais e não existe hierarquia, se isso é maravilhoso para artistas, que muitas vezes estamos em processos muito individuais. O que mais sinto falta nesses programas é uma continuidade mais forte. Sinto que, às vezes, acaba e acaba. Podemos desenvolver muito mais ações depois que a residência termina. Mais programas mirando artistas, e mulheres.

A pandemia deu uma desacelerada na vida cultural em todo mundo. o lockdown fechou também os clubes onde se podia ouvir e dançar ao som da música eletrônica. Você tinha um plano B?

A minha sorte, na pandemia, foi que eu já estava em vias de implementar e criar o meu curso online de produção musical. Inclusive quando decidiu-se pelo lockdown, eu tinha acabado de sair de uma reunião em que estava marcando de gravar as aulas, em um estúdio em São Paulo. O que acabou acontecendo foi que esse processo se acelerou. Tive que, emergencialmente, agilizar o curso para que ele acontecesse de uma forma que preenchesse a lacuna financeira das gigs como DJ e dos shows que eu tinha para fazer e precisei cancelar. 

Fale um pouco mais sobre o Wave Live Act, o curso de produção musical.

Ele continua disponível. São 12 videoaulas e três meses de acompanhamento. No final lançamos uma coletânea das produções dos alunos, e eu recomendo muito, tanto para quem não tem nenhum conhecimento musical, como também para quem já tem e quer conhecer uma nova ferramenta de produção musical. Além de ser também um laboratório de criação, onde aplico minha metodologia de composição, a Imaginação Criativa. É uma excelente forma de se inserir no mercado de produção fonográfica e se tornar um produtor musical, até porque a coletânea já vem alcançando grande visibilidade no meio da música eletrônica independente.

O que aprendeu com 2021, e o que pretende levar adiante em 2022?

Para 2022, eu tenho alguns projetos para serem implementados, inclusive o lançamento do meu terceiro álbum. Outro projeto que eu tenho para 2022 é atualizar o meu curso online e participar de mais programas de residência e conectar com mais artistas novos. Quero também dar uma acelerada na minha carreira como DJ e produtora de festas como a Baphyphyna e a FreeNikity. Eu acabei de entrar para uma agência nova que se chama Havona Art, junto com artistas que fazem parte da minha história e são muito importantes para mim. Estou bastante otimista quanto a 2022. Estamos apenas começando.

COMPARTILHE