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Andanças

Por Giovanni Faria

Giovanni Faria é jornalista com mais de 30 anos de atuação em jornais e rádios do país, professor universitário e um andarilho pelo mundo. Já percorreu mais de 5.500 KMs em 11 viagens pelo Caminho de Santiago de Compostela. Nasceu em Nova Friburgo, mas é frequentador assíduo das ruas de Niterói, onde mora e caminha diariamente por todos os cantos da cidade.
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A volta ao mundo na Ponte

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A Ponte Rio-Nierói, nas imagens de Gustavo Stephan

O ônibus parou no engarrafamento na subida do vão central. Próximo ao motorista, em pé no coletivo lotado, José Antonio viu, 20 ou 30 metros à frente, a causa da repentina retenção: um homem, em pé na mureta, ameaçava se jogar na Baía de Guanabara. Ato súbito, pediu que o motorista abrisse a porta, desceu, caminhou lentamente e se aproximou do suicida. Bom de conversa, o economista usou, em poucos minutos, meia dúzia de argumentos para evitar que o rapaz pulasse para a morte. O último deles foi fundamental:

– Cara, olha só o engarrafamento que você está causando…!

Agarrado a um poste de iluminação, a um passo do ato fatal, o homem levantou a cabeça para ver o caos que causara e… vapt! Zé Antonio o agarrou pelas pernas, jogando-o na pista. O fim dessa história merece o parágrafo seguinte.

Os dois terminaram a noite, juntamente com outros passageiros do ônibus, celebrando a vida com cerveja num botequim.

Sou 14 anos, menos três dias, mais velho do que a Ponte. Somos piscianos.  Sobre ela, devo ter passado anos de vida a fio no ziguezague Niterói-Rio-Niterói. Mais tempo parado em engarrafamentos gigantescos, claro, do que propriamente andando.
O jornalista, humorista e escritor Millor Fernandes dizia que um homem de 50 anos passara, em média, de 80 a 100 dias de vida em frente ao espelho fazendo barba. Nesse quesito perdi pouco tempo. Mas no ir e vir na gigante de concreto sobre o mar… nossa! Uma vida. E ainda passo, agora dia sim, dia não.

Vi, de tudo, um pouco. A coruja que se punha, imponente, todas as manhãs na mureta próximo ao pedágio. Era a atração matinal do ônibus 999 lotado em época que não havia celular e câmeras para torná-la famosa, embora tenha virado capa do jornal O Globo em meados dos anos 80.

Vi, e quase capotei de susto, uma calcinha voar sobre o vidro dianteiro de meu carro, enrolando-se no para-brisa – bem à frente, no banco de trás de outro veículo, de onde fora arremessada, um casal cumpria o ritual do sexo nas alturas. Com vidros abaixados.

Vi, numa véspera de feriadão de 7 de setembro, com tudo parado em direção a Niterói, o vão central virar uma quadra improvisada, a 70 e poucos metros de altura, para um bate-bola com a galera que tentaria, muitas horas depois, chegar à Região dos Lagos. Não, a bola não caiu no  mar.

Não vi, mas soube ou li, que um cachorro serelepe parou a ponte até ser capturado, um ciclista desafiou as regras a atravessou por inteiro, um doido até mesmo saltou de paraquedas já em épocas de redes sociais…

Enfim, nos primórdios da travessia, só havia parado na ponte para um xixi e outro na longa travessia de madrugada depois de uma saideira na Lapa. Quanta inconsequência juvenil provocada por uma bexiga cheia de cerveja.

Mas foi em meados dos anos 80 que tive a minha relação mais estreita com a ponte. Acabara de comprar um Fusca de uma amiga. Negócio fechado na Cidade Nova, em frente ao jornal O Globo, parti com o carango 76 rumo a Niterói. Próximo ao Sambódromo, sem nem mesmo ter esquentado o traseiro no banco de napa marrom, um pneu dianteiro explodiu. Refeito do susto, fiz a troca pelo estepe, bem gasto por sinal, e  segui viagem. Estava todo prosa, nada me abalaria… Só que não! Na ponte, o segundo tempo da jornada: outro pneu furou, agora traseiro. Sim, dois Firestone em menos de 15 quilômetros. Agora não havia mais estepe. Paguei gato por lebre, imaginei.

Na época, pré-concessionária, não havia socorro à vista. Teria de esperar o  reboque do Touring Club. Tranquei o carro na ponte, com o pneu arriado e liso feito borracha escolar, peguei uma carona até as barcas, cruzei a baía de volta olhando
para o possante parado lá no alto, cheguei à Cidade Nova, procurei a amiga-vendedora, que prontamente comprou um pneu novo na borracharia da Rua Irineu Marinho. Voltei à ponte, agora de táxi, com um  estepe a tiracolo, fiz a troca e, ufa-ufa, cheguei em casa – um terceiro pneu ainda furaria dias depois, a caminho da Região Serrana. Meu Fusca, codinome Egberto, banguela de pneu, passou quatro horas sozinho vendo a bela paisagem lá do alto – que luxo, que privilégio!

De 13 em 13 quilômetros, dei várias voltas ao mundo na Ponte Rio-Niterói.
E esse caminho ainda vai longe, assim espero.

Parabéns, cinquentona!

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